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“Wilson” de Daniel Clowes

É sempre difícil falar sobre quadrinhos de autores que admiramos. Parece que, ao verbalizar certas coisas, elas perdem a graça. Ou então ficamos com vergonha de ter uma opinião sobre um artista, ou uma obra, que nos tocaram naquelas partes do cérebro que quase ninguém alcança.

Ativando o modo gonzo.

***

O livro abre com uma capa praticamente desprovida de informação:

O nome do livro é o nome do personagem. Fundo branco. Um homem olha para o leitor. A capa é estóica, direta. O desenho deformado remete aos cartoons, mas vemos claramente que esse não é um livro para crianças.

Essa ambiguidade visual faz parte, cada vez mais, do estilo de Clowes, e em “Wilson” vai encontrar muito espaço para ser desenvolvida. O artista retrata seus personagens de várias maneiras, oscilando entre o quase-foto-realismo e o cartunismo extremo dos anos 1950. Os personagens podem apenas 2 cabeças de altura em uma páginas, e 6.5 cabeças na página seguinte.

A história do protagonista é contada em páginas individuais, apresentadas em seqüência cronológica, mas desconectadas entre si. Cada página individual tem um começo, um meio, e um fim, quase sempre terminando em uma espécie de “anti-punchline”, uma frase que conclui o raciocínio da página criando um anti-climax. Em uma página de quadrinhos de comédia normal, após o desenvolvimento da situação, o último quadrinho sempre fecha a história com uma frase, uma sacada que completa o mecanismo da piada. Em “Wilson”, os personagens fazem o anti-humor, interrompendo a narrativa com frases lúgubres, deprimentes, ou ofensivas.

O resultado é uma narrativa que desliza no limite entre o fragmentado e o linear. A cada uma das 72 páginas do livro, a história é abruptamente interrompida no último quadrinho, e retomada novamente no primeiro quadrinho da página seguinte. O estilo visual de cada página também muda de acordo com o clima da história, e o tratamento visual muda o tempo todo, revelando toda a maestria do autor. Impossível pensar em “Wilson” como um filme, mesmo se fosse de animação: toda a graça da narrativa está nesses detalhes puramente quadrinísticos. Detalhes sobre os personagens e suas trajetórias vão sendo revelados aos poucos, em pedaços soltos que aparecem aqui e ali, perdidos em uma linha de diálogo ou em um detalhe do cenário.

Clowes já trabalhou como roteirista em Hollywood, e talvez essa própria experiência o tenha ajudado a fazer quadrinhos cada vez mais específicos na linguagem que utilizam. “Wilson” nunca parece um filme parado e silencioso, ou um livro ilustrado. É um quadrinho do começo ao fim, e utiliza as ferramentas típicas dos quadrinhos para construir seu universo ficcional.

Quando Wilson visita seu pai no hospital, Clowes assume uma paleta de cores típica dos anos 1950, com linhas pretas sobre papel branco, e apenas 1 cor adicional funcionando como meio-tom. Isso era geralmente feito com alguma das cores básicas usadas em gráficas (magenta, ciano), ou um tom de marrom por exemplo; mas Clowes utiliza nessa página um tom de verde idêntico ao utilizado em uniformes e lençóis de hospitais. Mais do que citar um estilo de época apenas por prazer estético, Clowes utiliza seu conhecimento de design gráfico dos anos 1950 e 1960 a favor de sua história.

A história de Wilson é simples, mas os personagens são profundos. Clowes é um mestre da literatura na medida em que domina dois dos mecanismos mais difíceis e importantes da arte narrativa: encontrar a comédia dentro da tragédia (e vice-versa), e enxergar a semente de grandeza que existe dentro de cada pessoa, por menor que ela seja. No dia-a-dia, Wilson é um babaca, mas aos poucos aprendemos que ele é um cara sensível e que não deseja o mal - é apenas um filósofo frustrado, que expressa sua piedade pela tragédia humana ora com lágrimas, ora com fúria.

Mesmo sendo filho de um doutor em literatura comparada, Wilson é incapaz de lidar com a realidade que o cerca: viver nos Estados Unidos, um país rico em bens materiais e pobre em espírito, deixa qualquer um maluco. Perdido no vazio de uma existência sem família e sem amigos, esmagado entre carros e notebooks, Wilson implora por migalhas de afeição, mas seu orgulho intelectual torna tudo difícil. O único prazer de sua vida é passear com sua cadelinha, um personagem que a princípio parece banal e decorativo, mas que até o final do livro irá provar que ainda resta uma esperança para pessoas como nós, quero dizer, como Wilson.

Atenção especial à elegia no funeral, e às duas últimas páginas do livro.

Harmoniza com: “Lint” de Chris Ware, “Ice Haven” do próprio Clowes

***

A edição que analisamos nesse post foi a nacional, publicada pela Companhia das Letras. Capricho editorial em livros de quadrinhos é muito raro no Brasil. Esse livro é uma alegre exceção, como aliás tem sido a norma nos lançamentos da Quadrinhos na Cia. Até mesmo a tipografia do letreiramento dos balões foi feita com muito esmero, usando uma fonte de computador idêntica à do autor. A impressão das cores é ótima, o papel do miolo é de alta gramatura. Parabéns a todos os envolvidos, especialmente ao André Conti, editor de quadrinhos da Cia das Letras, e ao Érico Assis, tradutor dessa edição.

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Prof. Dr. Daniel L. Werneck é doutor em Artes e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Narrativas Gráficas da Escola de Belas Artes da UFMG.
As opiniões expressas nesse blog são de sua inteira responsabilidade e não refletem as opiniões dessa instituição.
Todos os posts desse blog são anotações temporárias que podem ser atualizadas ou corrigidas a qualquer momento, e não devem ser vistos como uma opinião definitiva do autor, nem citados em artigos científicos.
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